terça-feira, 23 de agosto de 2011

O sistema é uma cruz

Cheguei a uma clínica, numa tarde de segunda-feira, com a intenção de realizar consulta oftalmológica. Ao adentrar o bem arquitetado recinto, dirigi-me à maquininha de senha e retirei o número 459 para o atendimento. Constava no painel eletrônico, até então, o número 445. Dali a algum tempo o meu número seria chamado.

Em seguida, postei-me numa confortável poltrona da sala de espera, acomodei-me, dei uma boa analisada nas pessoas presentes no ambiente e iniciei a leitura do livro da vez que me acompanhava. No primeiro minuto de leitura, minha concentração foi desvirtuada pelo diálogo de duas senhoras de aproximadamente 70 anos, iniciado repentinamente. Uma estava sentada na fileira de cadeiras atrás de mim, a outra, veio ao seu encontro, partindo da maquininha de senha, à minha frente, assim que avistou a colega.

Ao que tudo indica, eram velhas conhecidas, mas que há tempos não se viam, pois, em três ou quatro minutos colocaram em dia a conversa de anos sem ver. Deduzi isso, uma vez que, confessadamente, não me contive em ouvir atentamente a conversa. 

Lógico que descreverei o diálogo, matando a sua curiosidade, leitor ou leitora, que deve ter imaginado que eu não iria socializar o papo! Chamarei de senhora 1 aquela que estava na fileira de trás da sala de espera e, de senhora 2, a que se encontrava retirando a senha de atendimento.

Senhora 1: ei muié! Quanto tempo!
Senhora 2: óxenti! Tu andava por onde mermã?
Senhora 1: vixe, nem te conto!
Senhora 2: ruuum!
Senhora 1: ...fiquei sabendo que o Zezin, teu marido, num sabe mais de nada?
Senhora 2: é muié, o bixim endoidou...Alzheimer!
Senhora 1: não conhece mais ninguém?
Senhora 2: só a gente de casa mermo, mas depois esquece tudo, lembra, esquece...!
Senhora 1: Ôooooo! Coitado! (breve pausa) ... Ah! Sabe o Pedin, meu fí de criação?
Senhora 2: ruuum!
Senhora 1: por num ficou deficiente, o bixim!
Senhora 2: moto? Caiu e num anda mais?
Senhora 1: não... um dia começou a xingar todo mundo, dava “pisa” na empregada lá de casa, saía e não sabia onde tava. O médico internou ele no Areolino de Abreu (Hospital que trata, entre outras enfermidades, de deficiência mental).
Senhora 2: aaaah! Ficou foi doido o coitado! Pensava que num andava mais.
Senhora 1: pois é...!
Senhora 2: ...mas, o resto tá tudo bem, né?
Senhora 1: é....tirando a “cataraca”!
Senhora 2: é assim mermo muié! Todo mundo tem uma cruzinha pra carregar! ... Pois deixa eu ir, foi um prazer!
Senhora 1: o prazer foi todo meu!

“Todo mundo tem uma cruzinha pra carregar”. Essa frase ficou incutida na minha cabeça e a toda hora me martelava. Não conseguia mais me concentrar na leitura. Ainda bem que logo em seguida uma atendente me chamou e eu a acompanhei até uma sala para medir a pressão ocular. 

Feito o procedimento, me dirigi a um corredor e, ali, em frente ao consultório, deveria aguardar até que fosse chamado para a consulta. O primeiro paciente entrou no consultório, um adolescente. Em 15 minutos a consulta dele foi concluída. Nesse momento, mentalmente, elaborei um rápido cálculo: se eu for o quarto da fila, levando cada consulta essa média de tempo, daqui a 45 minutos será a minha vez!

Quando acabo de concluir meu raciocínio, uma voz feminina, no final do corredor, grita: o sistema caiu! Tá tudo fora! Era uma atendente avisando às demais colegas acerca do empecilho que se instalara naquela tarde. Ato contínuo, concluí: os 45 minutos já eram, sabe Deus quando vou sair daqui. Ninguém merece!

Para passar o tempo, comecei a resgatar na memória as várias vezes que precisei utilizar serviços nos quais o sistema estava fora do ar ou, como a maioria diz, o sistema havia caído! Não foram poucas as vezes: banco, Detran, livraria, check-in, supermercado, cartão de crédito, Siafi, posto de gasolina, Universidade, pet shop (...).

Concluí que os sistemas informatizados, em rede, com seus bancos de dados, são ferramentas essenciais nos dias de hoje. Se não estiver no ar, nada funciona, o médico não saberá seu nome e seu prontuário não existirá.

O resultado foi que passei mais de uma hora para ser atendido. Aí, lembrando das várias ocasiões nas quais o sistema me deixou na mão, lembrei da frase de que “todo mundo tem uma cruzinha pra carregar”. Pois é ... o sistema é uma cruz!